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O Mundo aos olhos da Joana

O Mundo aos olhos da Joana

Ter | 07.03.17

Praxes, outra vez!

*ATENÇÃO* - Este post pode conter linguagem imprópria para pessoas sensíveis.

 

Todos os anos, no ínicio de cada ano lectivo ouvimos falar muito nas praxes, principalmente depois do que aconteceu no Meco. E todos os anos a conversa é a mesma... as praxes são más, humilham os estudantes, mexem com o seu psicológico e mais uma quantas coisas depreciativas.

Pois bem, eu fui praxada em 2010 e pela minha experiência eu não vejo a minha praxe como a descrevem. Não fui humilhada, não fizeram nada que me perturbasse psicologicamente.

Todos os anos fico aborrecida ao ouvir notícias sobre a praxe...Isto aconteceu? Culpa da praxe! A praxe é justificação para tudo que acontece aos estudantes universitários. 

Estou farta, mas muito farta deste assunto e por isso hoje decidi partilhar convosco a minha experiência e a minha opinião. 

Mas antes de fazê-lo quero mostrar uma notícia que me tirou do sério por completo.

 

Praxes de nojo, de castigo... e músicas que não podem estar neste título

 

Que é isto? Que é esta merda? Covilhã vista como das piores cidades para ser praxado? Que é isto? Estou incrédula. Ou as coisas mudaram muito em 7 anos ou eu não vivi a realidade.

Ora bem, como disse fui praxada em 2010...Onde? Na Covilhã. Foi para lá que fui estudar e foi mesmo lá que fui praxada e que praxei.

Ingressei no curso de Sociologia e no primeiro dia de aulas lá fui eu (de livre e expontânea vontade) para a praxe. Pouco ou nada sabia sobre as praxes e decidi experimentar. E deixem-me dizer-vos que adorei! É verdade, por incrível que vos possa parecer eu gostei bastante. 

A minha praxe baseava-se em brincadeiras, jogos, convívio, conversas, passeios. Ao contrário do que é dito nunca me senti humilhada em nada. Eu ia para a praxe feliz. Estava sozinha numa cidade estranha pela primeira vez, tinha 18 anos e não conhecia quase ninguém e custou-me imenso adaptar-me. Enquanto ia para a praxe estava animada, contente, ria, ria muito e esquecia que estava longe de casa. Foi na praxe que eu conheci a cidade, que conheci colegas mais velhos de outros anos, que desabafei. Nunca me fizeram nada que eu considerasse impróprio, nunca rastejei, nem coisa do género. A minha praxe era divertida e depois focamo-nos na construção do carro de latada, cada curso se dedicava a que o seu carro fosse o melhor e trabalhavamos para que tal acontecesse. Ao contrário do que é dito nunca ninguém me obrigou a beber álcool, quem queria comprava e bebia, ninguém era obrigado a fazer o que não queria fazer. Nunca passei frio, passei sempre bons momentos e dos quais tenho muitas saudades. 

Falam de melícias...Fui uma vez apanhada por uma melícia e ao contrário do que dizem, não, não acabou de manhã. Não fizeram mal a ninguém, muito pelo contrário, a praxe eram brincadeiras (como por exemplo fingir que estavamos nos idolos e cantar até chegarmos a um vencedor), quando tinhamos fome eles ofereciam comida, quando tinhamos frio eles emprestavam um casaco ou uma capa do traje, no fim ainda nos levavam a casa, se quiséssemos. E conheciamos pessoas de outros cursos, de outras faculdades. 

 

Confesso que nunca li o código de praxe na integra, nunca vi se fala ou não em sansões, mas em 5 anos que estive na Covilhã nunca vi tal coisa, nem nunca ninguém falou que lhe tivesse acontecido tal coisa.

Claro que eu falo do que vivi, do que presenciei e do que ouvi. Pessoas estupidas há em todo o lado, ideias estúpidas também, mas uma coisa é certa: Ninguém pode obrigar alguém a fazer algo que não quer. Se alguém o fizer, a meu ver, pode e deve ser punido legalmente. Se alguém fizer algo estúpido, ilegal ou magoar outro deve ser punido legalmente. Porque isso não é praxe é só gente estúpida que acha que tem poder sobre alguém. Vi, vi muitas pessoas terem praxe física, dura e ridicula e sim admito que isso de nada serve para integrar quem quer que seja. 

 

Quanto à praxe suja, existe sim, é verdade. Eu própria passei por isso...Sabem com o que levei? Com borras de café... borras de café, ovos, farinha. É dipensável? É, mas dramatizam mais do que realmente é. Lá está eu falo do que vivi, dos outros eu não sei nada. 

 

Fala-se também, na notícia, das músicas a insultar as pessoas de outros cursos... Mas alguém leva isso a sério? Quando numa música chamam "paneleiros"; "putas" e afins, quando dizem "merda", "pró caralho" e mais umas quantas asneiras, acham mesmo que é com a intenção de ofender alguém?? Acham mesmo que é direcionado a alguém? Por amor de Deus. O objectivo é cantar mais alto, ninguém liga às letras...Tanto não se liga que há as mesmas músicas e letras em vários cursos. Mas acho piada ao facto de não referirem que existem músicas que são cantadas em conjunto pelos cursos de cada faculdade, onde mostram o orgulho que têm pela faculdade, e há uma música que é cantada por todos os alunos da Unversidade, onde mostram o orgulho e a alegria que têm em se UBIanos (Ubianos são alunos da UBI - Universidade da Beira Interior).

Falam tanto de coisas más, e pouco referem que na Covilhã faz-se a praxe solidária, onde os alunos se juntam para ajudar alguma associação/instituição.

 

Há de facto coisas dispensaveis como cursos onde passam o tempo a fazer flexões e agachamentos. A praxe suja pode ser muito nojenta em alguns cursos. Não sei se existe praxe onde humilham ãs estudantes, porque nunca assisti a tal coisa. Se as asneiras são necessárias nas músicas, não são, opá mas quem é que nao diz um "caralho" ? Podem sempre mudar para "porra" ou "que chatisse", quer dizer o mesmo mas não fere susceptibilidades. 

 

A minha ideia de praxe é que é uma éspecie de convívio, uma distração, serve para brincar, conhecer o local onde se estuda, desabafar quando se está com problemas, fazer amigos. Sim a latada é brutal. Quem não tem orgulho em defender o seu curso? A cidade pára para ver o cortejo passar. Se há álccol? Há, para quem quiser. Ninguém obriga a beber. É como ir a uma festa: bebe quem quer. 

 

Querem abolir as praxes? Força! Façam-no de uma vez por todas, mas parem de andar constantemente a falar das praxes como algo depreciativo. Tomem uma atitude e pronto. Parem de dar exemplos de gente estúpida que acha ser brilhante com ideias brilhantes, que na realidade são estúpidas. E tão estúpido é quem tem as ideias como quem as aceita seguir.

Tanto quanto sei o que aconteceu no Meco foi uma tragédia (lá está uma idea estúpida de alguém), mas também pelo que sei, os estudantes sabiam para o que iam e mesmo assim aceitaram (isto não vos parece igualmente estúpido?)

A noção de praxe varia de pessoa para pessoa!

 

Se acabarem com as praxes, só espero que não se percam algumas coisas:

  • A latada
  • O convívio
  • As conversas
  • Os passeios pela cidade

Porque para mim isto é o verdadeiro sentido e significado de praxe. O resto? É dispensável sim, eu gostei das brincadeiras e jogos, mas pelo que tenho ouvido, nem toda a gente está satisfeita (isto a nível nacional e não apenas na Covilhã). 

Caso não acabem com a praxe só digo aos futuros caloiros: Quem quiser fazer que faça, quem não quiser que não faça. Não sofrerá represálias por desistir da praxe e, ao contrário do que é muitas vezes dito ninguém te pode impedir de vestir o traje. O dinheiro é teu e o traje é académico, não é de praxe. 

Deixem-me acrescentar que se alguém alguma vez "abusar" de vocês e da vossa dignidade têm todo o direito de apresentar queixa, porque isso meus caros, isso não é o que eu chamo de praxe.

 

A minha praxe foi fantástica e animada...

 

E agora, por favor, calem-se com o assunto!